A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio revela que a dificuldade de confiar em um novo relacionamento depois de viver um abuso não é sinal de que a pessoa “não superou” a relação anterior, mas uma resposta emocional esperada diante de uma experiência que ensinou, de forma dolorosa, que afeto e sofrimento podem estar profundamente entrelaçados. Essa dificuldade costuma surpreender a própria pessoa, especialmente quando ela já se sente pronta, racionalmente, para uma nova relação, mas percebe que o corpo e as emoções nem sempre acompanham esse mesmo ritmo de reconstrução.
Por que a confiança fica mais frágil depois de um abuso?
Confiar em alguém exige, de certa forma, se permitir vulnerabilidade, algo que se torna especialmente difícil depois de uma relação em que essa mesma vulnerabilidade foi usada contra a pessoa, muitas vezes dentro de uma dinâmica de dependência emocional já instalada. O corpo e a mente aprendem, na prática, a associar proximidade emocional a risco, mesmo quando a nova relação não apresenta nenhum sinal real de perigo. Esse aprendizado, embora doloroso, cumpriu uma função de proteção na relação anterior, e é justamente por isso que não desaparece de imediato.
Taiza Tosatt Eleoterio aponta que essa dificuldade não costuma se manifestar de forma óbvia, mas em pequenas reações desproporcionais, como desconfiança diante de gestos comuns de carinho ou dificuldade de relaxar completamente mesmo em momentos tranquilos da nova relação, mesmo quando não há nenhum motivo concreto para essa desconfiança.
Como o corpo guarda memórias que a mente tenta esquecer?
Mesmo quando a pessoa já elaborou, racionalmente, o que viveu na relação anterior, o corpo pode continuar reagindo como se o perigo ainda estivesse presente. Um tom de voz elevado, um silêncio prolongado ou uma mudança repentina de humor no parceiro atual podem reativar reações associadas à relação abusiva vivida antes, mesmo quando o contexto atual é completamente diferente.
Como destaca Taiza Tosatt Eleoterio, essas reações não significam que o novo relacionamento está repetindo o padrão anterior, mas que o sistema de alerta emocional, construído durante o abuso, ainda não teve tempo suficiente para se reorganizar diante de uma relação diferente e, de fato, mais segura.
Por que comparar o parceiro atual ao anterior é tão comum?
É frequente que, sem perceber, a pessoa compare comportamentos do novo parceiro aos do antigo, buscando sinais que confirmem ou descartem a possibilidade de estar repetindo o mesmo padrão. Essa vigilância constante, embora cansativa, funciona como uma tentativa de se proteger de sofrer novamente da mesma forma, mesmo quando essa vigilância acaba consumindo energia que poderia estar sendo usada para aproveitar a relação atual.
Essa comparação tende a diminuir com o tempo, à medida que a nova relação demonstra, de forma consistente, que não repete os padrões vividos anteriormente, mas esse processo raramente acontece de forma linear ou rápida. Momentos de retrocesso, em que a desconfiança volta com mais força, não significam que o trabalho de reconstrução foi perdido.
O papel da paciência do novo parceiro nesse processo
Um parceiro que compreende essa dificuldade, sem cobrar rapidez no processo de confiança, contribui significativamente para que a pessoa consiga, aos poucos, se permitir vulnerabilidade novamente. Reações de impaciência ou de cobrança, por outro lado, tendem a reforçar exatamente o medo que se tenta superar, confirmando, ainda que involuntariamente, receios que a pessoa já carregava.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que explicar abertamente, ao novo parceiro, de onde vêm certas reações, quando isso é possível, costuma facilitar esse processo, já que a transparência reduz mal-entendidos que poderiam ser interpretados, erroneamente, como desconfiança sem motivo ou falta de interesse na relação atual.
Por que esse processo não tem um prazo definido?
Não existe um tempo padrão para reconstruir a capacidade de confiar depois de um relacionamento abusivo. Cada pessoa processa essa experiência em um ritmo próprio, influenciado pela intensidade da relação anterior e pelo suporte emocional disponível durante o processo de recomeço, além da própria história pessoal de cada uma antes mesmo dessa relação abusiva ter começado.
Taiza Tosatt Eleoterio considera que cobrar de si mesma um prazo específico para “voltar a confiar normalmente” costuma gerar mais frustração do que ajuda, já que esse processo acontece em camadas, com avanços e recuos que fazem parte natural do caminho, e não em uma linha reta de melhora constante.
Como a psicanálise ajuda nesse processo de reconstrução?
A escuta psicanalítica oferece um espaço para elaborar, com calma, as marcas deixadas pela relação anterior, ajudando a pessoa a diferenciar entre reações ligadas ao passado e sinais reais presentes na relação atual. Esse trabalho de diferenciação, feito com apoio adequado, costuma trazer alívio considerável, já que reduz a sensação constante de estar em alerta sem saber exatamente por quê.
Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que reconstruir a confiança depois de um abuso não significa apagar o que foi vivido, mas aprender a distinguir, com mais clareza, entre o medo aprendido e a realidade da nova relação, permitindo que a proximidade volte a ser sentida como algo seguro, e não apenas como um risco a ser vigiado a todo momento.
Reconstruir a confiança depois de um abuso, para Taiza Tosatt Eleoterio, não significa apagar o que foi vivido, mas aprender a distinguir, com mais clareza, entre o medo aprendido e a realidade da nova relação, permitindo que a proximidade volte a ser sentida como algo seguro, e não apenas como um risco a ser vigiado a todo momento.
