Para o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, a recuperação energética de resíduos ainda é tratada no Brasil como solução alternativa, quando, na prática, já deveria fazer parte da matriz energética nacional. O conceito é direto: em vez de descartar resíduos em aterros, é possível extrair deles energia elétrica, térmica ou combustível, reduzindo simultaneamente o volume de lixo e a dependência de fontes fósseis.
Nos próximos parágrafos, você vai entender por que esse modelo avança tão lentamente no país, quais são as tecnologias disponíveis e onde estão as oportunidades reais para municípios e empresas.
O que significa recuperação energética na prática?
Recuperação energética é o processo pelo qual resíduos que não podem ser reciclados ou reaproveitados de outra forma são convertidos em energia utilizável. Ela ocupa uma posição específica dentro da hierarquia da gestão de resíduos: vem depois da redução, do reúso e da reciclagem, mas antes da disposição final em aterros.
Na prática, isso significa que uma cidade bem estruturada aproveita ao máximo os materiais recicláveis, trata a fração orgânica por compostagem ou biodigestão e destina apenas o rejeito final para processos de recuperação energética ou aterramento. Quando essa cadeia funciona, o volume de lixo que chega aos aterros cai drasticamente e a energia gerada no processo pode abastecer parte da própria infraestrutura urbana.
Conforme aponta o engenheiro Odair José Mannrich, o erro mais comum é tentar implementar recuperação energética sem antes organizar as etapas anteriores da cadeia. Sem separação na fonte e sem tratamento adequado da fração orgânica, o resíduo chega ao processo com baixo poder calorífico e alto teor de umidade, comprometendo a eficiência de qualquer tecnologia aplicada.

As tecnologias mais usadas e seus contextos de aplicação
Entre as principais rotas de recuperação energética estão a incineração com aproveitamento de calor, a gaseificação, a pirólise e a biodigestão anaeróbia com geração de biogás. Cada uma tem características específicas que determinam onde e como podem ser aplicadas.
A incineração com recuperação energética é a mais difundida globalmente e funciona melhor em grandes centros urbanos com alto volume de geração de resíduos. A gaseificação e a pirólise operam com temperaturas elevadas e produzem gases ou óleos combustíveis, sendo mais indicadas para resíduos industriais e agroindustriais. Já a biodigestão é especialmente eficiente para resíduos orgânicos úmidos, como os gerados em frigoríficos, laticínios e centrais de triagem de resíduos domésticos.
Na visão de Odair José Mannrich, a escolha da tecnologia certa depende de um diagnóstico técnico detalhado que considera composição gravimétrica dos resíduos, escala do projeto, capacidade operacional local e viabilidade econômica de longo prazo. Não existe solução universal.
Por que tantos projetos não saem do papel no Brasil?
O Brasil acumula estudos de viabilidade, projetos-piloto e intenções de investimento na área de recuperação energética que, na prática, raramente avançam para a fase de implantação. Os motivos são variados, mas alguns padrões se repetem com frequência.
O licenciamento ambiental ainda é um gargalo significativo, especialmente para projetos que envolvem incineração, alvo histórico de resistência por parte de comunidades e órgãos ambientais. A ausência de uma regulamentação específica e consolidada para o setor também gera insegurança jurídica para investidores privados. Além disso, Odair José Mannrich expõe que a falta de projetos executivos bem elaborados faz com que muitas iniciativas cheguem às instâncias de aprovação sem o embasamento técnico necessário.
Conforme destaca o engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, a maturidade técnica dos projetos é um fator determinante para que saiam da fase de planejamento. Propostas mal dimensionadas ou sem respaldo em dados reais de geração e composição de resíduos dificilmente conseguem aprovação regulatória ou financiamento adequado.
Recuperação energética como parte da economia circular
Mais do que uma solução para o lixo, a recuperação energética é uma peça dentro de um modelo maior: a economia circular. Nesse modelo, resíduos deixam de ser o fim de um ciclo produtivo e passam a ser insumos para novos processos, seja como materiais reciclados, seja como energia recuperada.
Empresas que adotam essa lógica reduzem custos operacionais, diminuem sua pegada de carbono e ganham competitividade em mercados que valorizam práticas sustentáveis. Municípios que estruturam sistemas integrados de gestão de resíduos com recuperação energética conseguem reduzir o custo da disposição final e gerar receita a partir de algo que antes representava apenas despesa.
Portanto, escalar a recuperação energética no Brasil exige mais do que tecnologia disponível. Como observa Odair José Mannrich, o que faz a diferença são projetos tecnicamente sólidos, financiamento estruturado e uma visão de longo prazo que enxergue o resíduo não como problema, mas como recurso com valor real. Enquanto esse entendimento não se consolidar entre gestores públicos e tomadores de decisão, o país continuará desperdiçando uma oportunidade que o próprio lixo já está oferecendo.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
